Em derrota rara para Trump, Suprema Corte mantém acesso de presos trans a tratamentos

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala com membros da imprensa ao sair da Casa Branca rumo ao Kansas, em Washington, DC, EUA, em 19 de outubro de 2026 REUTERS...

Em derrota rara para Trump, Suprema Corte mantém acesso de presos trans a tratamentos
Em derrota rara para Trump, Suprema Corte mantém acesso de presos trans a tratamentos (Foto: Reprodução)

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala com membros da imprensa ao sair da Casa Branca rumo ao Kansas, em Washington, DC, EUA, em 19 de outubro de 2026 REUTERS/Kevin Lamarque A Suprema Corte dos Estados Unidos, de maioria conservadora, rejeitou nesta quarta-feira (21) um recurso apresentado pelo governo do presidente Donald Trump para restabelecer imediatamente uma política destinada a restringir tratamentos e acompanhamentos oferecidos a pessoas transgênero detidas em prisões federais. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Em uma decisão breve e sem justificativa detalhada, os magistrados mantiveram em vigor uma ordem de instância inferior que havia bloqueado a medida enquanto a disputa judicial continua tramitando nos tribunais. Apenas os juízes Clarence Thomas e Samuel Alito, considerados os membros mais conservadores da corte, manifestaram publicamente discordância da decisão.  Embora não represente uma decisão definitiva sobre o mérito do caso, o resultado constitui uma derrota incomum para a administração Trump em um tema que se tornou central na agenda política conservadora desde seu retorno à Casa Branca. Veja os vídeos em alta do g1 Agora no g1 O litígio tem origem em uma série de medidas adotadas após a posse presidencial, em janeiro de 2025. No primeiro dia de governo, Trump assinou um decreto segundo o qual a administração federal passaria a reconhecer exclusivamente dois sexos, masculino e feminino, definidos no nascimento. A ordem determinou uma ampla revisão de políticas federais relacionadas à identidade de gênero. No sistema penitenciário federal, a nova orientação levou à formulação de regras que impediriam a realização de cirurgias de transição de gênero, restringiriam terapias hormonais e eliminariam medidas de acompanhamento destinadas a presidiários trânsgenero. Entre essas medidas estavam itens como perucas, maquiagem e outros recursos utilizados para adequar a aparência à identidade de gênero da pessoa detida.  Segundo o governo, a política era necessária para preservar a segurança institucional das prisões federais e corrigir práticas que, na avaliação da administração, deixaram de ser justificáveis.  LEIA TAMBÉM: Governo Trump avalia usar Itaipu para abastecer empresas norte-americanas de tecnologia Trump barrou plano de Israel para fazer novos ataques pesados contra o Irã, diz jornal Política rompe com prática adotada há mais de três décadas A proposta, entretanto, representaria uma mudança significativa na forma como o sistema penitenciário federal norte-americano lida com a questão. Documentos apresentados pelos autores da ação judicial indicam que as prisões federais oferecem tratamento hormonal para pessoas diagnosticadas com disforia de gênero desde pelo menos 1992. A nova política interromperia uma prática consolidada ao longo de mais de trinta anos.  O caso foi levado à Justiça por um grupo de detentos transgênero encarcerados em diferentes estados norte-americanos. Com apoio da American Civil Liberties Union (ACLU), eles argumentaram que o governo não apresentou evidências suficientes para justificar uma mudança tão profunda na política prisional federal.  Os advogados dos presos também sustentaram que a interrupção abrupta dos tratamentos poderia causar sérios danos físicos e psicológicos. A disforia de gênero é o diagnóstico clínico atribuído ao sofrimento provocado pela incompatibilidade entre o sexo registrado no nascimento e a identidade de gênero da pessoa. Especialistas afirmam que, sem tratamento adequado, a condição pode estar associada ao agravamento de quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico intenso.  Ao bloquear a política, o juiz federal Royce Lamberth destacou justamente os riscos potenciais para a saúde dos detentos. Em sua decisão, observou que a suspensão dos tratamentos poderia aumentar problemas como depressão, ansiedade e pensamentos suicidas.  O magistrado também afirmou que o governo não apresentou evidências produzidas por seus próprios especialistas de saúde mental ou profissionais médicos que sustentassem a necessidade da mudança. Guerra cultural chega às prisões Além de seu impacto imediato sobre o sistema penitenciário, o caso reflete uma disputa política mais ampla que domina parte do debate público nos Estados Unidos. Desde o retorno de Trump ao poder, sua administração vem promovendo uma série de iniciativas para restringir políticas relacionadas à identidade de gênero. Essas medidas atingiram diferentes áreas da administração federal, incluindo o serviço militar, documentos oficiais e programas públicos voltados à população transgênero.  As questões envolvendo direitos trans se transformaram em um dos temas mais polarizadores da política norte-americana, mobilizando ações judiciais, projetos legislativos estaduais e disputas eleitorais em todo o país. Nesse contexto, a decisão da Suprema Corte chama atenção por interromper temporariamente uma política defendida pela Casa Branca mesmo diante de uma composição considerada amplamente favorável aos conservadores. Atualmente, a corte possui seis magistrados identificados com posições conservadoras e três considerados progressistas.  A decisão desta quarta-feira não encerra a disputa judicial. O processo continuará tramitando nas instâncias inferiores, onde será analisada a legalidade da política adotada pela administração Trump. Até que haja um julgamento definitivo, porém, o sistema penitenciário federal dos EUA permanecerá obrigado a manter os tratamentos e acompanhamentos oferecidos atualmente às pessoas transgênero sob sua custódia.